Abril 09, 2009

Serveur. Garçom. Mais um vinho por favor.

Minha vida se resumia ao Le Rouge, a Bibliothèque Nationale de France e minha casa. Era minha rotina há uns 20 anos. Quer dizer. Ainda é. Tenho que parar com essa mania de falar no pretérito. Pra quem não gosta de gente é sensacional. Se você gosta de gente seu lugar não é a França (péssimo humor, se é que você me entende). Uma típica rotina de vinho. Envelhecer em um canto sozinho sem muito rebuliço até o dia de morrer. Quer dizer, ser bebido. Pra mim a morte é como ser bebido. Um grande mergulho num buraco escuro para logo após ser reciclado nas profundezas de algum lugar. Era 1963 e isso era filosofia de boteco. Não o ano, a parte sobre a morte.

O Le Rouge era um bar de quinta categoria que ficava num beco perto da Rue San Martin cuja pronúncia é san martan (ainda paro de escrever para o Brasil). Engraçado que em 20 anos de visitas religiosamente diárias ao Le Rouge eu nunca tenha aprendido o nome do garçom que também era o dono. Para mim sempre foi serveur. Serveur, un sommelier s’il vous plaît. Garçom, um vinho por favor. E ele servia. E porra, sabe que no começo era uma merda porque ele sempre me enchia a paciência puxando conversa a ponto de eu quase desistir de frequentar o lugar. Isso foi no começo. O tempo e muitas tentativas infrutíferas fizeram ele parar. Voltou a ser o silencioso e prestativo serveur. Fazer o que. Algumas companhias a gente tem de aturar. O serveur era uma dessas companhias. Serveur, plus d’un sommelier. Vai arrumar uma mulher ele dizia. Vai à puta que o pariu eu respondia. E ele trazia mais vinho.

Um dia a porta do Le Rouge abriu e não era eu que estava entrando. Um sujeito. Livro debaixo do braço cigarro pendurado na boca bigode ridículo. Típico intelectual a procura de um bar de quinta para ler, se entupir de álcool e sentir-se um excêntrico recluso. Tá certo que eu também fazia exatamente a mesma coisa mas, eu sou eu, e esse cara… Bom. Esse cara era só um cara. O filho da puta sentou-se ao meu lado e pediu um vinho. Essa rotina dele durou umas duas semanas até ele falar comigo já leu esse livro? Tirei o cigarro da boca e soprei a fumaça, com pose blasé. Ele disse conhece o autor? É o Fulano de Tal. É claro que eu conhecia pois o autor era eu. Então o serveur disse mas o Fulano de Tal é esse aí do seu lado, revelando que sabia o meu nome (maldito cheque) e era mais esperto do que parecia. Fils de pute. Filho da puta.

O sujeito se levantou e colocou a taça na boca mas não bebeu. Mudou de idéia. Sei lá. Falou mas quem diria hein? Você… Apontei o cigarro para ele e falei olha aqui seu… Olha aqui nada. Quem diria. Logo você… E eu que achava que você já tinha morrido, apesar da sua editora lançar livros e mais livros de sua autoria dizendo que “o autor vive recluso e incomunicável na França para potencializar seu processo criativo“. Então era mesmo você o autor e não uma equipe que escrevia sob seu nome para continuar vendendo livros. Eu disse sim sou eu mesmo e daí? Ele disse o sonho acabou. O mistério não tem mais graça. Não tinha jogada nenhuma. Era você mesmo escrevendo. Terminou a taça de vinho de um gole só e saiu andando em direção à porta não sem antes dizer vous êtes une fraude. Você é uma farsa.

Perguntei ao serveur o seu nome.

Ele disse meu nome é Serveur. Serveur Delacroix. Esperto pensei. Então Serveur, plus d’un sommelier s’il vous plaît. Mais um vinho por favor. Ele trouxe. Bebi. Pensei. Algumas companhias a gente tem de aturar. Rotina de vinho é uma merda.

Agosto 13, 2008

O acidente

A cena era humilde. O homem era velho. Roupas surradas. O sapato gasto jogado do outro lado da rua. A bolsa enrolada no tronco. E a morte do lado.

Hoje um acidente aconteceu na minha porta. Foi simples assim. Primeiro o barulho do impacto, depois aquele barulho de ferro sendo amassado e quase no mesmo instante o barulho da moto sendo arrastada no chão. E quando disse que o acidente aconteceu na minha porta, disse sem exageros. Estava lá, para todos (e eu) ver. O sangue, a carne e os ossos. Aquela massa humana largada ao chão. E por incrível que pareça, a massa humana era tão humana que gemia, gritava de dor.

Provavelmente alguém já deve ter atentado a este fato antes mas, eu só o percebi na hora do acidente. Seres humanos adoram sangue. Adoram uma carnificina. O ser humano adora ver a morte. Por mais que isso possa lembrá-lo que um dia também ele irá morrer, o ser humano adora ver o outro morrendo. Não demonstra, mas adora. E isso se comprovou para mim nos rostos na multidão ao redor do acidente. Todo mundo se junta ao redor para ver. O crânio esmagado, o pé arrrancado à força, deixando a carne exposta.

E mesmo com o sangue jorrando, a carne à mostra, os ossos para fora, e a certeza da morte sem aviso prévio, o povo ainda olha. E com curiosidade. Ficam lá, parados, só olhando. Pensando na família do homem, que nem imaginava que ele ia morrer naquele momento. Nem ele imagiva que ia morrer naquele momento. Nem mesmo o próprio momento sabia que iria matar ele.

Eu acabei notando minha grande capacidade de observar os outros quando todos os outros observam o ponto de maior atenção. Os outros não descobriram nada. Só olhavam.

O povo adora uma carnificina.

Adora.

Ora.

E não resolve nada.

E eu fico lá. Olhando.

Depois ando.

Julho 25, 2008

Como você sabe que não existe Deus?

por Frank R. Zindler

Crente: Como você sabe que Deus não existe? Que tipo de prova você tem?

Ateísta: Como você sabe que não existe Coelho da Páscoa? Como você sabe que não existe Papai Noel? Você achou provas contra a existência de Thor e Osiris?

Crente: Você está brincando?! Estes são só mitos produzidos pelos homens. Eu estou falando sobre Deus!

Ateísta: Bem, o ônus da prova é seu para provar que uma deidade existe. Eu não tenho que provar uma negativa universal. O ônus da prova recai sempre naquela pessoa que alega a existência de alguma coisa.

Crente: Não vou cair nessa. Você tem que provar que meu Deus não existe.

Ateísta: Seu Deus? Singular? Como você sabe que não há vários Deuses? Você provou a não-existência de Deusas?

Crente: Não seja bobo! Eu estou falando da existência de Deus, o criador do universo.

Ateísta: Ah! Agora estamos chegando ao ponto! Você está falando sobre mim!

Crente: Desde quando você é Deus?

Ateísta: Há um pouco mais que uma quantidade de tempo infinita. E Claro, eu criei você três minutos atrás.

Crente: Isso é loucura! Eu tenho 57 anos de idade!

Ateísta: É claro que você tem: eu criei essas memórias em você, e também alterei a memória de todas as pessoas, para fazer parecer que você estava por aí antes de três minutos atrás..

Crente: Eu suponho que você tenha criado minha certidão de nascimento também! Que evidência você tem para sustentar tamanho absurdo?

Ateísta: Ah! Então você está começando a entender que o ônus da prova é de quem alega a existência de um Deus. Você não acha que deveria tentar “desprovar” a alegação de que eu sou Deus?

Crente: Bom, talvez Se você é Deus, porque não realiza um milagre?

Ateísta: Boa pergunta. Infelizmente, eu não faço milagres mais. Eu poderia se quisesse, mas eu decido que de agora em diante, as pessoas tem de acreditar em mim através da fé. Sendo um Deus, eu acabei de ler a sua mente e eu vejo que você está pensando que pode ser capaz de me torturar e me forças e confessar que não sou Deus. Bom, execute esta idéia! Eu posso muito bem decidir fingir estar com dor e “confessar” todo tipo de bobagens. Mas acredite em mim, eu puniria você pela eternidade depois que você morrer!

Crente: Ei! Isto não é argumentação válida. Não haverá nada que eu possa fazer para sua alegação de divindade. Você sempre poderá se desviar dela alegando que só vai me mostrar a verdade depois que eu morrer!

Ateísta: Bem verdade! Você está aprendendo o quão difícil é provar uma negativa universal. Mas você está aprendendo uma lição ainda mais importante.

Crente: E qual é?

Ateísta: Você está aprendendo que é burrice argumentar sobre proposições que não podem ser testadas nem mesmo na imaginação. Para cada teste que você puder imaginar fazer, eu poderia vir com uma maneira de me desviar de seu argumento – da mesma maneira que todos os pregadores me falam que seu Deus não quer se envolver em meus testes. Minha alegação de ser uma divindade não pode ser testada. Sua alegação da divindade de Jeová, ou Jesus não pode ser testada também. Se eu pedir a seu Deus para me acertar com um raio na cabeça se eu estiver errado, posso garantir que nada vai acontecer. Seu Deus não se interferirá mais da mesma maneira que eu não interferiria. Hipóteses que não podem ser testadas nem mesmo na imaginação são inúteis, sem significado. Elas não podem nem mesmo ser falsas. Não precisamos perder nosso tempo tentando “desprovar” elas. Você não irá perder seu tempo tentando provar que eu não sou um deus, e nenhuma pessoa em sã consciência irá tentar perder tempo tentando provar a não-existência do seu Deus não testável e improvável. E é claro, quando você fazer uma afirmação sobre seu Deus escolhido, e que for testável, pessoas sãs podem tirar tempo para mostrar como os resultados do teste se mostram negativos. Mas no geral, ninguém irá perder tempo tentando provar que Jeová e eu não somos Deus.

Então pare de se preocupar com Deuses e outros conceitos impossíveis de ser testados. Foque-se no mundo real. Diferentemente de deuses e mulas-sem-cabeça, o mundo real pode afetar a sua vida para o mal ou para o bem. Somente o ideal de deuses pode afetar você. Se deuses eles mesmos pudessem afetar nosso mundo, nós não precisaríamos debater a sua existência!


Escrito por Frank R. Zindler e traduzido por mim à pedido do autor.

Março 21, 2008

Como fazer uma crônica

Várias pessoas já me perguntaram sobre como se escreve uma crônica. Bem, não é das coisas mais difíceis de se construir, visto que uma crônica é só um relato de um pequeno acontecimento do cotidiano. O problema é que ninguém quer parar e observar esse pequeno acontecimento do cotidiano, que acontece todos os dias na frente de todos. Veja bem, é fácil. Se você não tem alma vagabunda, alma de flaneur, do tipo que gosta ficar observando tudo ao seu redor, você pode inventar a crônica a partir de suas experiências. Mas a observação constante do cotidiano é, de fato, o que faz a crônica.

Mulheres são ótimas personagens de crônicas. Convenções e hábitos sociais juntos com as mulheres fazem crônicas melhores ainda. A quebra e a desconstrução destas convenções e hábitos onde personagens do gênero feminino participem do enredo fazem crônicas muito mais que melhores. Por exemplo, não seria genial um pai viajar para encontrar com o filho na cidade onde este mesmo cursa faculdade, e ao chegar, descobrir que o filho estuda muito, não sai a noite, não se envolve com mulheres, e gasta todo o dinheiro recebido com livros ao invés de bebidas e cigarros? Isso para o pai é revoltante! Como esse canalha do filho dele pode gastar todo o seu dinheiro com estudo? Onde estão as mulheres? Onde estão as garrafas de uísque? E o pior, comprar livros às custas dele? Isso é um horror!

Pois é. Isso é uma crônica do Luís Fernando Veríssimo. Genial, não? Quase, para ser genial só faltaram as mulheres. Fazer crônicas é fácil. Basta algum conhecimento da língua portuguesa e alguma prática em redação. Vou provar isso começando a escrever uma crônica aqui mesmo e agora.

Primeiro, criemos dois personagens. Acho que vou me decidir por duas mulheres, elas sempre são imprevisíveis e qualquer coisa pode ser feito por elas. As duas se encontram no meio da rua, são amigas a mais de 10 anos. A intimidade entre elas é visível. Encontram-se e resolvem parar em um café para colocar a conversa em dia. Dessa situação podemos desencadear várias outras. Elas podem ir ao banheiro juntas, ou pode aparecer na porta do café um ex-namorado de uma que a trocou por outro homem, ou podemos até fazer com que um carro entre voando pela vitrine e mate instantaneamente as duas, mas isso não seria bom pois a crônica terminaria precocemente, e essa não é a nossa intenção. Vou me decidir então pela opção de uma delas resolver ir ao banheiro. Como sempre, a outra vai atrás, um hábito social tipicamente feminino. Pelo fato das mulheres sempre irem juntas ao banheiro, alguns deles já são construídos de maneira que cada box tenha dois vasos sanitários, para que as duas possam sentar e conversar enquanto fazem o que tem de fazer.

Um banheiro bonito (e só isso, porque crônica narrativa não tem muita descrição). As duas entram conversando no banheiro. Um fato normal. Uma puxa o batom da bolsa enquanto a outra vai ajeitando o soutién (sei lá como se escreve isso). Até aí, um fato normal da rotina de qualquer mulher. Então aqui, nesta parte em que o texto já está se tornando chato, inserimos a surpresa, o ápice, a virada de mesa da crônica. Paula (é o nome de uma delas) abre a porta de um dos boxes do banheiro e se depara com o seu ex-namorado (aquele que a trocou por um homem) sentado num vaso. Ela solta um grito escandaloso ("Seu sem-vergonha!") enquanto a outra amiga grita assustada.

Se quisermos, podemos interromper a narrativa aqui e começar outra aparentemente não conectada a nossa história.

Naquela tarde, Laércio dirigia seu carro tranquilamente pela rua. Tinha marcado de encontrar com seu namorado, Luis, que tinha recentemente assumido sua homossexualidade e largado de sua namorada para ficar com ele. Foi neste momento que um homem empurrando um carrinho de pipocas entra na frente do seu veículo sem perceber o perigo, o que fez Laércio se desviar bruscamente numa guinada de volante, indo de encontro à parede de um café, destruindo todo o banheiro feminino do estabelecimento, matando duas mulheres perto do espelho e um homem vestido de mulher sentado na privada.

Março 03, 2008

Curriculum vitae humano

Era pobre. Definitivamente. Não tinha dinheiro e ainda tinha que imprimir um currículo para pedir emprego. Não sabia se ia de ônibus pois, se pegasse a condução, não almoçava, e se almoçasse, ia a pé de barriga meio cheia, pois a refeição era frugal e não lhe satisfazia.

Almoçou. Almoçou e foi a pé. Tinha de achar uma copiadora qualquer na área central da cidade para imprimir o seu curriculum vitae, documento que, supostamente, conteria informações sobre toda sua vida profissional, que não era muito extensa, e sobre suas habilidades e aptidões. Enfim, uma farsa. Iria trabalhar como assalariado, como a maioria da cidade, para o resto da vida.

Por incrível que pareça, tinha um nome, característica que é aparentemente o sinal máximo de individualidade do ser humano. Um nome que dizia que ele, era ele, apesar de se infundir no meio da massa de pessoas caminhando às ruas da cidade, como qualquer rosto, qualquer voz, qualquer olhar. Anônimo. Homônimo. E o nome dele era Antônio.

O calor era insuportável, e o suor já lhe escorria na testa. O barulho de carros, de gente, do centro urbano já se misturava em sua cabeça num zumbido indefinível que lhe causava asco. Suas origens eram rurais, assim como seus costumes, e não se acostumava àquela loucura. Precisava trabalhar e ganhar dinheiro para comer, para morar, para viver e poder morrer.

Entrou no estabelecimento. O calor parecia ter aumentado, talvez devido ao tamanho minúsculo do lugar, e a quantidade de computadores enfileirados em mesas. Era um daqueles novos estabelecimentos dos tempos modernos: uma lan house. Não estava cheio. Havia uma moça num canto, compenetrada na tela da máquina, e um rapaz sentado na mesa da recepção, provavelmente olhando para a tela do seu computador só por automatismo, pois já não tinha mais onde olhar. O rapaz parou e o olhou nos olhos:

- O que o senhor deseja?

Perguntou o preço da impressão. O seu olhar era humilde e mirava para o chão. Tinha 63 centavos no bolso e rezava para que o preço não passasse desse valor. O rapaz olhou o arquivo. Tinha três páginas.

- Olha moço, isso aqui fica a um e cinquenta.

Um e cinquenta. Era o preço que tinha de pagar para poder concorrer a um emprego. Só que Antônio não conhecia uma coisa. Coisa que só foi compreender quando saiu da loja com o currículo em mãos. Seres humanos se compreendem. Um olhar diz muita coisa. E foi por causa dessa característica intrínsecamente humana que Antônio viu nos olhos do rapaz uma compaixão plena, um olhar de quem sabia o que se sofre para conseguir trabalhar. E o rapaz viu nos olhos de antônio a dor e o sentimento de impotência perante a vida, perante a incapacidade de alcançar dignidade. Num gesto de cumplicidade, o rapaz se aproximou de Antônio:

- Quanto você tem? - perguntou, adivinhando que Antônio não tinha o dinheiro todo.

- 63 centavos.

- Faz o seguinte. Eu te faço aqui a impressão, você me dá o dinheiro que você tem, e a gente deixa por isso mesmo.

Antônio entregou as moedas ao rapaz, recebeu o papel que supostamente continha sua vida impressa e agradeceu.

Novembro 29, 2007

Se não fosse o veneno

Meu nome é Helena. Mais conhecida como Lena. E acho a amizade uma coisa muito bonita. Tudo começa naquele curso de inglês, onde você conhece a Lígia e se tornam grandes amigas ao descobrir afinidades como o gosto pelo cinema do Glauber Rocha e o desgosto pelo mesmo ex-namorado, que até então nunca tinha namorado outra antes. E então depois que a amizade consolida-se, e vocês começam a ter conversas sobre sexo, segredos e dietas, uma outra amiga entra para o grupo.

A Cláudia era a mais velha e a mais experiente. Conhecemos a Cláudia no hospital quando tivemos ao mesmo tempo um coma alcoólico, problema que a outra passava também, depois de uma noitada numa boate. Perguntamos o nome dela, que respondeu muito prestativa com uma voz bastante embargada com “meu nome é claudinha37@hotmail.com. Caímos na gargalhada e ficamos muito amigas. O grupo das amigas passava agora a integrar três mulheres. Mas assim como o grupo dos três mosqueteiros era formado por quatro integrantes, o nosso também chegaria a esse número. O problema das mulheres é o veneno. Tudo começou a ficar ruim quando conhecemos a Lúcia. Parece que quatro não era um número bom. Devíamos ter ficado como simples três amigas. Como disse antes, o problema das mulheres é o veneno. Tudo começou quando a Lúcia, que era a mais experiente, perguntou:

- Qual foi a posição mais estranha que vocês fizeram sexo? Acho que nem me lembro mais. Foram tantas. Tem o General Pinochet pulando de pára-quedas, a lambada russa, a bailarina alcoólatra, o urso voador, o biloquê duplo, a garrafa de 51, enfim, tantas outras. Qual foi a sua posição mais estranha Lígia?

A megera sabia que a Lígia era a mais tímida e não gostava de falar sobre esses assuntos. Perguntou só pra deixar a garota deslocada. O problema das mulheres é isso, o veneno.

- Não sei Lúcia. Não faço essas coisas assim. Eu gosto de coisas mais delicadas. – disse, com o rosto corado.

- Para com isso Lígia. Você fica aí dando uma de santinha, mas todo mundo faz isso. Conta logo e deixe de chorumelas.

O olhar da Lígia era fulminante. O olhar da Lúcia era, venenoso. O grande problema na amizade feminina. O veneno.

-Eu não faço Lúcia! Olha gente, vou embora, porque a conversa está começando a tomar um rumo que eu não gosto. Se algumas pessoas aqui agem como putas, não é minha obrigação segui-las.

Depois disso começou a briga. Uma ofendeu a outra. Objetos foram lançados. E depois de duas semanas as duas voltaram a se encontrar na minha casa. Era uma reunião de paz. Vieram fazer as pazes e voltar a conversar. A Lígia trouxe um vinho branco e ofereceu um brinde a todas. Um brinde a amizade. Caímos no chão e agonizamos por alguns minutos. Morreram todas, menos eu. Não gostava de vinho.

O problema das mulheres é esse. O veneno. Se não fosse o veneno...

Novembro 24, 2007

A igreja e o homem

Ele morava só no seu apartamento. E ao lado de seu prédio existia o seu inimigo mortal. Uma igreja evangélica. Já tinha se perdido em contas de quantas vezes chamara a polícia para interromper a algazarra dos pulos e gritos do pastor que eram amplificados potentemente por um sistema de microfones e alcançavam seu apartamento perfeitamente. Até já conhecia os discursos do homem de cor. Podia ouví-los todos os dias a noite antes de dormir. O som chegava diretamente ao seu ouvido, nítido e claro.

Tinha chegado a um momento da sua vida em que já sentia pena do diabo, de tanto o coitado ser ofendido e enxotado todos os dias, pela voz do pastor tão determinado em acabar com seu legado de tentações. O que tinha o tinhoso feito de tão mal na vida do sujeito? O importante é que os planos para a tarde já estavam prontos. Estava tudo certo. Tudo sistemáticamente pensado. Conferiu tudo para que nada saísse errado.

As três da tarde, desceu as escadas do prédio e parou em frente a porta da igreja. Jogou a bomba e saiu correndo. Depois parou na padaria da esquina. Comprou quatro pães e um picolé de côco. Enquanto pagava a compra no caixa ainda pode ouvir o barulho da explosão. Saiu da padaria calmamente, entrou no prédio onde morava e foi tomar o seu café, na sua calma e tranquila tarde de domingo.